Ferreira, F. I. (2005). “Trabalho é Formação: questões de educação e formação de adultos”. Comunicação apresentada no Congresso Internacional Educação e Trabalho: representações sociais, competências e trajectórias profissionais, Universidade de Aveiro, Aveiro, 2 a 4 de Maio.
Tema: Questões de educação, formação, trabalho e
(des)emprego inerentes aos cursos de educação e formação de adultos.
Assunto / palavras-chave: a
“crise da educação” enquanto crise de legitimidade da instituição escolar e não
do modelo escolar; tensões entre o modelo escolar e as aprendizagens adquiridas
pela experiência de vida; influências do modelo escolar na educação e formação
de adultos; o insucesso escolar enquanto problema social; as novas formas de
contratualização e os fenómenos de exclusão/inclusão.
Síntese do artigo:
Em meados do séc. XVIII, a instituição
escolar era vista como um instrumento de desenvolvimento das sociedades, tendo
iniciado assim a sua expansão que se prolongou pelos séculos XIX e XX. Os anos
60/70 do século XX foram um período de glória para a escola tendo este período
ficado conhecido por “gloriosos anos do fordismo”.
A partir dos anos 60-70 do século XX, num
contexto de crise cultural e económica, a crença na escola hegemónica foi
abalada, tendo surgido a expressão “crise da educação”. Antes deste período, a
escola era útil e representava a justiça, pois permitia a integração dos jovens
na vida social e profissional.
Coloca-se, assim, a questão de se saber o
que está em causa quando se fala da crise na educação e na escola.
O autor sustenta que esta ideia da “crise”
tem tido como referência a “instituição escolar” e não o “modelo escolar”, pois
tem sido observada a escolarização de outros contextos de educação e formação.
A “forma escolar de socialização” adotou a
“classe” como modelo uniforme de escolarização, constituída por um grupo
homogéneo de alunos, e impôs-se a outras formas de socialização.
Os tempos e espaços de educação e formação
são separados dos tempos e espaços do trabalho, do lazer e da participação
cívica. Esta separação complica a abordagem integrada dos processos de educação
e formação de adultos e o reconhecimento e validação das aprendizagens
adquiridas pelos sujeitos nas suas experiências de vida.
O autor realça o facto de que o insucesso
escolar emergiu como problema social, passando as desigualdades sociais a serem
problematizadas em termos de “insucesso escolar”.
Assim, o autor sustenta que, no que diz
respeito à designada crise da instituição escolar, a ideia de “crise” corresponde
mais profundamente ao declínio das instituições e argumenta ainda que nem a
Escola, nem a Família, nem a Igreja podem ser consideradas instituições, no
sentido clássico do termo.
Os quadros sociais nos quais os indivíduos
constroem as suas experiências e se formam como sujeitos são importantes na valorização
das “histórias de vida”, constituindo um dispositivo integrador no âmbito da
educação e formação de adultos.
A relação entre as histórias de vida e a
educação e formação de adultos é marcada por tensões e tendências entre as perspetivas
focalizadas nas dimensões do controlo, da regulação e da monitorização e as perspetivas
que revelam uma visão libertadora do indivíduo e que ignoram condições
estruturais adversas que ele enfrenta. Além disso, as influências do modelo
escolar na educação e formação de adultos são visíveis no modo como são
definidos os programas e planos de estudos.
O autor, apoiando-se em Canário (2000),
refere-se às mudanças de contextos da escola: a escola passou de um contexto de
certezas para um contexto de promessas, inserindo-se atualmente num contexto de
incertezas. Os anos 80 revelaram, por um lado, o aumento de qualificações e,
por outro lado, o aumento do desemprego e das desigualdades. É, no entanto,
contraditório, que o debate sociológico duas últimas décadas do século XX se
tenha centrado mais nas questões da exclusão do que das desigualdades. Na
passagem dos anos 80 para os anos 90 aconteceu uma situação idêntica com os
fenómenos do desemprego e da pobreza, tendo havido uma maior preocupação com o
fenómeno da exclusão.
Alain Touraine (1992), o primeiro teórico
da exclusão, explica que o tema passou a ocupar o lugar que era ocupado
anteriormente pelas desigualdades na esfera produtiva.
A abordagem piramidal deu lugar, com a
passagem de uma sociedade dita vertical para uma sociedade dita horizontal, à
oposição in/out. A questão social
inscreve-se
assim numa dinâmica social global, sendo visível a vulnerabilidade de massa
associada à crise da sociedade industrial-salarial. O salariado assumiu,
durante muito tempo, uma posição muito incerta, indigna e miserável.
Nos anos 60, o salariado passou a ocupar o
lugar de matriz de base da sociedade industrial-salarial moderna.
A centralidade ocupada pelo trabalho na
sociedade industrial-salarial está, no entanto, fortemente abalada no mundo de
hoje, falando-se mesmo em “fim do trabalho” ou fim da “sociedade de trabalho”.
Ao trabalho integrador da sociedade industrial
sucedeu o emprego seletivo da sociedade pós-industrial, o que originou
fenómenos de precarização.
Subsiste a tendência de se encararem os fenómenos
de exclusão social como assuntos da responsabilidade individual, tendência
aliás crescente na utilização da abordagem contratual nas políticas sociais
públicas.
Já há duas décadas que o modelo clássico
do “contrato social” atravessa um período de grande agitação. O autor refere,
no entanto, que a situação atual não se traduz numa crise do contratualismo
social mas sim na sua consagração. O autor cita Sousa Santos (1998), para dizer
que hoje estamos perante uma nova “contratualização liberal individualista”
(ideia do contrato de direito civil, entre indivíduos).
Os fenómenos de exclusão/inclusão estão
hoje muito associados a estas novas modalidades de contratualização, assentando
numa lógica de responsabilização individual.
Os indivíduos que não dispõem de recursos
para fazer face às exigências correm o risco de serem “desinseridos”
socialmente, e passam a encarar-se como os únicos responsáveis pelo seu
insucesso.
Urge, portanto, encontrar novas práticas e
novas teorias que permitam olhar para a educação e formação de adultos não
apenas com caráter paliativo mas antes com uma função emancipatória, e tendo
sempre presente a importância da formação para o trabalho e a ideia de que
trabalho é formação.

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