quinta-feira, 30 de março de 2017

Trabalho é Formação: questões de educação e formação de adultos




















Ferreira, F. I. (2005). “Trabalho é Formação: questões de educação e formação de adultos”. Comunicação apresentada no Congresso Internacional Educação e Trabalho: representações sociais, competências e trajectórias profissionais, Universidade de Aveiro, Aveiro, 2 a 4 de Maio.


Tema: Questões de educação, formação, trabalho e (des)emprego inerentes aos cursos de educação e formação de adultos.



Assunto / palavras-chave: a “crise da educação” enquanto crise de legitimidade da instituição escolar e não do modelo escolar; tensões entre o modelo escolar e as aprendizagens adquiridas pela experiência de vida; influências do modelo escolar na educação e formação de adultos; o insucesso escolar enquanto problema social; as novas formas de contratualização e os fenómenos de exclusão/inclusão.


Síntese do artigo:
Em meados do séc. XVIII, a instituição escolar era vista como um instrumento de desenvolvimento das sociedades, tendo iniciado assim a sua expansão que se prolongou pelos séculos XIX e XX. Os anos 60/70 do século XX foram um período de glória para a escola tendo este período ficado conhecido por “gloriosos anos do fordismo”.
A partir dos anos 60-70 do século XX, num contexto de crise cultural e económica, a crença na escola hegemónica foi abalada, tendo surgido a expressão “crise da educação”. Antes deste período, a escola era útil e representava a justiça, pois permitia a integração dos jovens na vida social e profissional.
Coloca-se, assim, a questão de se saber o que está em causa quando se fala da crise na educação e na escola.
O autor sustenta que esta ideia da “crise” tem tido como referência a “instituição escolar” e não o “modelo escolar”, pois tem sido observada a escolarização de outros contextos de educação e formação.
A “forma escolar de socialização” adotou a “classe” como modelo uniforme de escolarização, constituída por um grupo homogéneo de alunos, e impôs-se a outras formas de socialização.
Os tempos e espaços de educação e formação são separados dos tempos e espaços do trabalho, do lazer e da participação cívica. Esta separação complica a abordagem integrada dos processos de educação e formação de adultos e o reconhecimento e validação das aprendizagens adquiridas pelos sujeitos nas suas experiências de vida.
O autor realça o facto de que o insucesso escolar emergiu como problema social, passando as desigualdades sociais a serem problematizadas em termos de “insucesso escolar”.
Assim, o autor sustenta que, no que diz respeito à designada crise da instituição escolar, a ideia de “crise” corresponde mais profundamente ao declínio das instituições e argumenta ainda que nem a Escola, nem a Família, nem a Igreja podem ser consideradas instituições, no sentido clássico do termo.
Os quadros sociais nos quais os indivíduos constroem as suas experiências e se formam como sujeitos são importantes na valorização das “histórias de vida”, constituindo um dispositivo integrador no âmbito da educação e formação de adultos.
A relação entre as histórias de vida e a educação e formação de adultos é marcada por tensões e tendências entre as perspetivas focalizadas nas dimensões do controlo, da regulação e da monitorização e as perspetivas que revelam uma visão libertadora do indivíduo e que ignoram condições estruturais adversas que ele enfrenta. Além disso, as influências do modelo escolar na educação e formação de adultos são visíveis no modo como são definidos os programas e planos de estudos.
O autor, apoiando-se em Canário (2000), refere-se às mudanças de contextos da escola: a escola passou de um contexto de certezas para um contexto de promessas, inserindo-se atualmente num contexto de incertezas. Os anos 80 revelaram, por um lado, o aumento de qualificações e, por outro lado, o aumento do desemprego e das desigualdades. É, no entanto, contraditório, que o debate sociológico duas últimas décadas do século XX se tenha centrado mais nas questões da exclusão do que das desigualdades. Na passagem dos anos 80 para os anos 90 aconteceu uma situação idêntica com os fenómenos do desemprego e da pobreza, tendo havido uma maior preocupação com o fenómeno da exclusão.
Alain Touraine (1992), o primeiro teórico da exclusão, explica que o tema passou a ocupar o lugar que era ocupado anteriormente pelas desigualdades na esfera produtiva.
A abordagem piramidal deu lugar, com a passagem de uma sociedade dita vertical para uma sociedade dita horizontal, à oposição in/out. A questão social inscreve-se assim numa dinâmica social global, sendo visível a vulnerabilidade de massa associada à crise da sociedade industrial-salarial. O salariado assumiu, durante muito tempo, uma posição muito incerta, indigna e miserável.
Nos anos 60, o salariado passou a ocupar o lugar de matriz de base da sociedade industrial-salarial moderna.
A centralidade ocupada pelo trabalho na sociedade industrial-salarial está, no entanto, fortemente abalada no mundo de hoje, falando-se mesmo em “fim do trabalho” ou fim da “sociedade de trabalho”.
Ao trabalho integrador da sociedade industrial sucedeu o emprego seletivo da sociedade pós-industrial, o que originou fenómenos de precarização.
Subsiste a tendência de se encararem os fenómenos de exclusão social como assuntos da responsabilidade individual, tendência aliás crescente na utilização da abordagem contratual nas políticas sociais públicas.
Já há duas décadas que o modelo clássico do “contrato social” atravessa um período de grande agitação. O autor refere, no entanto, que a situação atual não se traduz numa crise do contratualismo social mas sim na sua consagração. O autor cita Sousa Santos (1998), para dizer que hoje estamos perante uma nova “contratualização liberal individualista” (ideia do contrato de direito civil, entre indivíduos).
Os fenómenos de exclusão/inclusão estão hoje muito associados a estas novas modalidades de contratualização, assentando numa lógica de responsabilização individual.
Os indivíduos que não dispõem de recursos para fazer face às exigências correm o risco de serem “desinseridos” socialmente, e passam a encarar-se como os únicos responsáveis pelo seu insucesso.
Urge, portanto, encontrar novas práticas e novas teorias que permitam olhar para a educação e formação de adultos não apenas com caráter paliativo mas antes com uma função emancipatória, e tendo sempre presente a importância da formação para o trabalho e a ideia de que trabalho é formação.

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